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São Paulo num dia

9 h de percurso4 paragensMelhor: Abril-maio ou setembro. E traz camadas: aqui o tempo muda sozinhoAtualizado julho de 2026

EM RESUMO

Em 2007, São Paulo proibiu a publicidade exterior. Não a regulou: proibiu-a inteira. Retiraram-se cerca de quinze mil painéis, obrigou-se a reduzir os letreiros das lojas a um tamanho mínimo, desapareceram os anúncios dos autocarros, as telas dos edifícios e os folhetos. A lei chamou-se Cidade Limpa, aplicou-se em meses e continua em vigor. É a experiência urbana mais radical que alguma cidade grande do mundo fez, e quase ninguém fora do Brasil o sabe.

The free span of MASP, with the covered plaza beneath
© Daderot · CC0 · Wikimedia Commons

O interessante foi o que apareceu por baixo. Ao caírem as telas saiu arquitetura que estava tapada há décadas, e saíram também as favelas e as casas em ruínas que os painéis escondiam. Muitos paulistanos disseram que estavam a ver a sua cidade pela primeira vez. Um dia aqui é exatamente sobre isso: olhar para uma cidade enorme, feia, brutal e fascinante a quem tiraram a maquilhagem por decreto.

O percurso, paragem a paragem

4 PARAGENS
  1. 01

    O MASP

    ⏱ 2-3 h

    Um bloco de vidro suspenso no ar entre quatro colunas vermelhas, deixando por baixo uma praça pública vazia de setenta metros. Desenhou-o Lina Bo Bardi nos anos sessenta e é o edifício mais famoso do Brasil depois dos de Niemeyer. Mas o que há que ver está lá dentro.

    Os quadros não estão pendurados em paredes: estão montados sobre painéis de vidro transparente segurados por um bloco de betão, a flutuar numa sala diáfana. Podes rodear cada quadro e ver o reverso da tela, com a grade, as etiquetas e a história do objeto. Não há ordem imposta, não há percurso e não há legenda à frente: a ficha está atrás, por isso primeiro olhas e depois lês.

    Lina Bo Bardi fê-lo assim em 1968 para tirar solenidade ao museu e pôr o visitante a decidir. Em 1996 desmontaram-nos e puseram paredes normais, em 2015 voltaram a pô-los. É a melhor ideia museográfica do século XX e está aqui.

  2. 02

    A Avenida Paulista

    ⏱ 2 h

    Quase três quilómetros de avenida no alto de uma lomba, com torres de escritórios, museus, bancos e um rio de gente. É a rua símbolo de São Paulo e há que andá-la inteira, o que se faz numa hora.

    Aqui estiveram os palacetes dos barões do café que construíram esta cidade com o dinheiro do grão no final do século XIX. Quase todos foram demolidos para erguer torres, e esse gesto, deitar abaixo o teu próprio património para pôr escritórios, é muito paulistano e explica o aspeto da cidade. Resta um ou outro solto, encaixado entre arranha-céus, para que compares.

    E se puderes, vem ao domingo: desde 2015 a avenida fecha ao trânsito o dia inteiro, e o que aparece é outra coisa. Ciclistas, patinadores, músicos, famílias, bancas e milhares de pessoas a andar por seis faixas vazias. É o melhor dia da semana nesta cidade, com diferença.

  3. 03

    O Mercadão

    ⏱ 1-2 h

    O Mercado Municipal abriu em 1933 com vitrais alemães enormes que mostram a agricultura brasileira, e lá dentro cheira a fruta que nunca viste na vida. As bancas dão-te a provar: cupuaçu, jabuticaba, graviola, pitaia. Diz que sim a tudo e depois compra alguma coisa, que é o acordo tácito.

    E lá em cima, no mezanino, está o motivo por que metade da cidade vem: a sandes de mortadela. É uma barbaridade deliberada: entre duas fatias de pão metem uma montanha de mortadela cortada fina que pesa meio quilo, com queijo derretido se quiseres. É absurdo, é icónico e não a vais acabar sozinho: pede-a a meias e não tenhas vergonha. Ao lado está o pastel de bacalhau, que é o mesmo em frito.

    E depois sai a pé pelo centro velho, que é ali mesmo, e olha para os edifícios dos anos trinta que estiveram décadas tapados por painéis publicitários até 2007.

  4. 04

    O pixação

    ⏱ 1 h

    Olha para cima em qualquer edifício do centro e vais ver umas letras pretas, altas, angulosas e apertadas, a trepar por fachadas inteiras até alturas impossíveis. Não é grafíti internacional: é pixação, e é uma linguagem visual que nasceu nesta cidade e que não existe em mais nenhum sítio do mundo.

    O alfabeto vem, segundo os próprios pixadores, da tipografia das capas de discos de heavy metal dos anos oitenta, deformada até se tornar ilegível para quem está de fora. E a graça não é a tinta: é onde está posta.

    O valor dá-o o risco, por isso compete-se para escalar os sítios impossíveis, sem cordas, por fachadas de vinte pisos e de noite. Já morreu gente a fazê-lo.

    É ilegal, é um assunto de classe, vem da periferia e ataca a cidade rica, e chegou a bienais de arte contemporânea, o que gera uma discussão que aqui continua viva. Não é preciso que gostes. Mas sabendo o que é, deixas de ver uma fachada suja e vês uma mensagem.

Perguntas frequentes

O que ver em São Paulo num dia?

O MASP, com os seus quadros a flutuar sobre painéis de vidro sem parede atrás, que é a melhor ideia museográfica do século XX, a Avenida Paulista a pé, e ao domingo, quando fecha inteira ao trânsito, o Mercado Municipal e a sua sandes de mortadela, que se pede a meias, e olhar para cima para ver o pixação, esse alfabeto vertical que nasceu aqui e não existe em mais lado nenhum.

É verdade que São Paulo proibiu a publicidade?

Sim, em 2007, e continua em vigor. A lei chamou-se Cidade Limpa e não regulou a publicidade exterior: proibiu-a inteira. Retiraram-se cerca de quinze mil painéis, obrigou-se a reduzir os letreiros das lojas e desapareceram as telas dos edifícios e os anúncios dos autocarros. O interessante foi o que apareceu por baixo: arquitetura tapada durante décadas, e também as favelas e as ruínas que os painéis escondiam.

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