Onde comer em São Paulo
3 h de percurso4 paragensMelhor: A feijoada, quarta ou sábado. A pizza, ao domingo à noiteAtualizado julho de 2026
A maior comunidade japonesa fora do Japão vive em São Paulo, e tem data de início: junho de 1908, quando atracou no porto de Santos um navio chamado Kasato Maru com as primeiras famílias, contratadas para trabalhar nos cafezais. Chegaram a pensar que voltariam ricas em uns anos e não voltou quase ninguém. Hoje há mais de um milhão e meio de descendentes neste estado, e o bairro da Liberdade é o seu centro.

Essa história é metade da comida desta cidade. A outra metade trouxeram-na os italianos, que chegaram aos milhões no final do século XIX pelo mesmo motivo, o café, e que fizeram de São Paulo uma cidade de pizza. A isso soma libaneses, portugueses, brasileiros do nordeste e uma cena contemporânea de primeiro nível. São Paulo é a capital gastronómica da América Latina e não é uma opinião discutível: é o que há quando cinco vagas de imigrantes se instalam na mesma cidade e se põem a cozinhar.
O percurso, paragem a paragem
4 PARAGENS- 01
Liberdade
Ruas com lanternas vermelhas, supermercados com produtos que nunca viste e restaurantes japoneses de todos os níveis, desde o sítio de ramen ao balcão até ao sushi a sério. Aos domingos há feira na rua, com bancas de comida japonesa feitas por senhoras nikkei e filas de gente.
E há que provar uma coisa que só existe aqui: a cozinha nikkei brasileira, que é o que acontece quando japoneses passam cem anos a cozinhar com produto do trópico. Daí sai o temaki como comida rápida de rua, há cadeias inteiras, o sushi com manga, salmão e queijo creme, coisas que a um japonês do Japão parecem um disparate e que aqui são a norma há décadas. Não é sushi mal feito: é outra cozinha, com a sua própria lógica e cem anos de história.
E o bairro já não é só japonês: há chineses, coreanos e taiwaneses, e as três cozinhas convivem na mesma rua. Vai a um domingo.
- 02
A pizza de domingo
São Paulo leva a pizza a sério, e não como citação de passagem: a imigração italiana foi tão maciça que há bairros inteiros (Bixiga, Bela Vista, Mooca) construídos por eles, e a pizza tornou-se instituição local ao ponto de o domingo à noite ser a noite da pizza para a cidade inteira. É um rito familiar e as pizarias enchem.
A pizza paulistana não é napolitana nem romana: tem a sua própria escola, com a massa mais grossa do que a napolitana e mais mole do que a romana, imenso queijo, bastante mais do que um italiano toleraria, e uma lista de ingredientes que em Itália seria um crime, incluindo versões doces com chocolate que se pedem de sobremesa na mesma mesa.
Discutir isso com um paulistano não leva a lado nenhum: é a pizza deles, fazem-na assim há um século e é-lhes indiferente o que diga Nápoles. Pede-a numa pizaria de bairro das de sempre, a um domingo à noite, e vais ver a cidade na sua versão mais doméstica.
- 03
A feijoada, e os seus dias
O prato nacional brasileiro: feijão preto cozido durante horas com diferentes partes do porco, incluindo as que não esperas, servido com arroz, couve cortada fina e refogada, farofa, laranja e um molho de malagueta. Come-se com caipirinha antes e durante.
Duas coisas práticas. A primeira: tem dias. Em São Paulo a feijoada serve-se tradicionalmente às quartas e aos sábados, e muitos sítios bons não a fazem no resto da semana. Se a queres, olha para o dia.
A segunda: é uma refeição que anula a tarde. Não é exagero: aqui come-se ao meio-dia e depois não se planeia nada, porque não vais conseguir. Os brasileiros sabem-no e assumem-no. A laranja que vem ao lado não é decoração: está ali para cortar a gordura, e há que comê-la. E não a peças à noite: ninguém janta feijoada, é comida de meio-dia e de dia de folga.
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O pastel da feira
Em qualquer bairro de São Paulo há uma feira livre semanal: o mercado de rua que se monta num dia fixo numa rua cortada. E em toda a feira há uma banca de pastéis, que é onde há que comer.
O pastel é um folhado grande, retangular, de massa finíssima, frito na hora em óleo muito quente, que sai inchado e estaladiço e queima. Recheia-se de queijo, de carne picada, de palmito ou de camarão.
E acompanha-se obrigatoriamente de caldo de cana: sumo de cana-de-açúcar espremido à tua frente com um moinho de rolos, servido gelado com gelo e às vezes com lima. A combinação do frito e salgado com o doce e frio é o lanche paulistano por excelência e custa praticamente nada.
Atenção a uma coisa: a origem do pastel é provavelmente chinesa, adaptada por imigrantes japoneses e chineses que vendiam nas feiras. Outra vez o mesmo: nesta cidade, quase tudo o que é local veio de fora.
Perguntas frequentes
O que se come em São Paulo?
A melhor comida da América Latina, e vem da imigração: japonês e nikkei brasileiro na Liberdade. Aqui vive a maior comunidade japonesa fora do Japão, desde 1908, pizza, que é instituição e se come ao domingo à noite, feijoada às quartas e aos sábados, que anula a tarde, e pastel com caldo de cana em qualquer feira de bairro. E a sandes de mortadela do Mercadão, a meias.
Porque há tantos japoneses em São Paulo?
Por causa do café. Em junho de 1908 atracou no porto de Santos um navio, o Kasato Maru, com as primeiras famílias japonesas contratadas para trabalhar nos cafezais deste estado. Chegaram a pensar que voltariam ricas em uns anos e não voltou quase ninguém. Hoje há mais de um milhão e meio de descendentes no estado e é a maior comunidade japonesa fora do Japão. O seu centro é o bairro da Liberdade.