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Onde comer em Santorini

3 h de percurso4 paragensMelhor: Come terra adentro. No fio da caldeira pagas a vistaAtualizado julho de 2026

EM RESUMO

As vinhas daqui crescem enroscadas sobre a terra, como cestos, e nunca foram enxertadas. Os tomates cultivam-se sem os regar uma única vez em toda a sua vida. E o resultado das duas coisas é o mesmo: numa ilha sem água doce, sem chuva e com um vento que queima, tudo o que cresce fá-lo à força, a tirar a humidade do orvalho nocturno da cinza vulcânica. E isso concentra o sabor de uma maneira que não se consegue a regar.

Santorini's vines, pruned into baskets low to the ground
© Joye~ · CC BY 2.0 · Wikimedia Commons

Esse é o argumento da cozinha de Santorini e é um argumento a sério, não uma história de ementa. Aqui há três ou quatro produtos com nome próprio que só existem assim por culpa do vulcão e da sede. O problema não é encontrá-los: é não acabar a jantar uma ementa plastificada numa varanda com vistas, a pagar a vista e não a comida. Aqui isso acontece mais do que em qualquer outro sítio da Grécia.

O percurso, paragem a paragem

4 PARAGENS
  1. 01

    O assyrtiko

    ⏱ 2-3 h

    O assyrtiko, a uva branca desta ilha, faz algo que tecnicamente não devia ser possível: um vinho com acidez alta e fio mineral, num sítio onde faz um calor bestial. Os brancos de clima quente costumam sair moles e planos, este sai tenso, seco e com um fundo salgado que as pessoas atribuem ao mar e ao solo de cinza.

    As adegas visitam-se e é a melhor coisa que se pode fazer com as horas centrais do dia, porque estão terra adentro e frescas. Pede também o vinsanto, que é o vinho doce daqui: faz-se a deixar as uvas ao sol sobre esteiras até passarem, e depois criando-o em barrica muitos anos. É denso, escuro e não enjoa.

    E uma coisa que convém saber para não fazer figura: o vinsanto de Santorini não tem nada a ver com o vin santo italiano, ainda que o nome se pareça. Aqui fazem-no desde antes.

  2. 02

    O tomate que não se rega

    ⏱ 1 h

    O tomate de Santorini forma uma variedade própria, pequeno como uma cereja, de pele dura, e o seu traço é que se cultiva em sequeiro absoluto: nunca se rega, nem uma vez. A planta tira a humidade do orvalho que condensa de noite na cinza vulcânica. O resultado é um tomate com pouquíssima água e uma concentração de sabor e açúcar que não se parece com o tomate de estufa.

    Esse tomate foi durante décadas a indústria desta ilha, muito antes do turismo: havia fábricas de conserva e exportava-se em lata para meio Mediterrâneo. Quando chegou o turismo, as fábricas fecharam, e uma delas é hoje um museu do tomate, o que soa a piada e é uma maneira excelente de perceber o que isto era antes dos hotéis.

    À mesa vais encontrá-lo nas tomatokeftedes, uns bolinhos fritos de tomate com ervas e cebola, que são o aperitivo local e são viciantes.

  3. 03

    A fava, que não é fava

    ⏱ 1 h

    O prato de todos os dias desta ilha é um puré amarelo, cremoso, servido morno com azeite cru, cebola picada e às vezes alcaparras por cima. Chama-se fava e aqui vai a armadilha linguística: não leva favas. Apesar de fava significar fava em italiano, a fava grega faz-se com uma leguminosa diferente, uma ervilha amarela partida que se cultiva nesta ilha há milénios e que tem denominação de origem própria.

    Pede-se como entrada, come-se com pão e com colher, e a variante que há que procurar é a fava me koukia ou a que leva cebola caramelizada e alcaparras por cima. É comida de camponês, barata, e em qualquer taberna de aldeia do interior está óptima. Junto com ela, pede as alcaparras e as folhas de alcaparra em salmoura, que aqui se comem e no resto da Europa não, e a beringela branca da ilha, que é outra variedade própria e sai doce.

  4. 04

    Onde não comer

    O conselho mais útil sobre comer em Santorini é pela negativa. No fio da caldeira, em Oia e na parte central de Firá, há uma fila de restaurantes com esplanada pendurada sobre a cratera, ementa em várias línguas e preços que não correspondem ao que chega ao prato. Não é que sejam uma fraude: é que estás a pagar o metro quadrado de varanda, que nesta ilha é o bem mais caro que existe.

    A alternativa está a cinco minutos de autocarro. Nas aldeias do interior (Pyrgos, Emporio, Megalochori, Vothonas) há tabernas de sempre onde comes fava, tomatokeftedes e peixe por metade e mais bem feitos, com gente da ilha nas mesas. E há uma excepção em que a vista merece pagar-se: Amoudi, o porto aos pés de Oia, onde o peixe é dessa manhã e a vista vem de oferta.

    A regra geral não falha: quanto melhor a vista da mesa, pior a comida em cima dela.

Perguntas frequentes

O que se come em Santorini?

Fava (um puré de ervilha amarela com denominação de origem que, apesar do nome, não leva favas), tomatokeftedes (bolinhos do tomate minúsculo da ilha, que se cultiva sem nunca o regar), alcaparras e folhas de alcaparra, beringela branca e peixe. Para beber, assyrtiko, um branco tenso e salino, e vinsanto de sobremesa. E come terra adentro: no fio da caldeira pagas a vista, não a comida.

Vale a pena o vinho de Santorini?

Sim, e é uma raridade mundial: o assyrtiko sai ácido, seco e salino numa ilha onde faz um calor bestial, coisa que não costuma acontecer. As cepas nunca foram enxertadas, a filoxera não sobrevive na cinza vulcânica, e trançam-se no chão a formar cestos para se protegerem do vento. As adegas estão terra adentro e frescas: são o plano perfeito para as horas centrais do dia.

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