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Os bairros de Amesterdão
5 h de percurso4 paragensMelhor: Qualquer dia, o centro, a meio da semana e cedoAtualizado julho de 2026
Durante séculos, nesta cidade tolerou-se o que estava proibido com uma condição simples: que não se visse da rua. Os católicos, oficialmente perseguidos depois da Reforma, construíram igrejas inteiras dentro de casas particulares e ninguém as fechou. A regra não era «é permitido»: era «não olhamos». Há uma palavra para isso, gedogen, e não tem tradução exata: é tolerar ativamente algo ilegal.

Essa lógica de quatrocentos anos é a que continua a ordenar os bairros desta cidade, e sem ela não se entende nem o bairro vermelho nem os coffeeshops: não são coisas legais, são coisas toleradas sob condições. E agora Amesterdão está em plena discussão sobre até onde isso vai, porque a cidade se cansou de um tipo concreto de turismo. Percorrer os bairros daqui é ver essa negociação em marcha.
O percurso, paragem a paragem
4 PARAGENS- 01
De Wallen, e a discussão
O bairro vermelho ocupa o núcleo mais antigo da cidade, com dois canais lindíssimos, a igreja velha do século XIV no meio e as janelas iluminadas de vermelho. O trabalho sexual é legal e está regulado desde o ano 2000: são trabalhadoras independentes que alugam a janela por turnos, com direitos laborais e de saúde. Essa é a parte que quase ninguém explica.
E há regras que há que cumprir, não sugestões. É terminantemente proibido fotografar ou filmar as trabalhadoras: não é uma questão de bom gosto, é que te vão increpar, e com toda a razão. As visitas guiadas pelo bairro estão proibidas desde 2020, precisamente porque grupos de turistas parados à frente da janela de alguém que está a trabalhar era insustentável. E desde 2023 não se pode fumar canábis na rua nesta zona.
A cidade há anos que reduz o número de janelas e fez campanhas explícitas a pedir a certo perfil de turista que não venha. Passeia por aí se quiseres, é um bairro lindo, mas vai sabendo que as pessoas das janelas estão a trabalhar e não são uma atração.
- 02
O Jordaan
A oeste do anel, um emaranhado de ruas estreitas, canais pequenos e casas baixas que é o bairro mais bonito da cidade e onde há que perder-se uma tarde inteira. Há galerias, lojas estranhas, cafés castanhos (os bares de sempre, com a madeira escurecida por séculos de tabaco) e pátios escondidos.
A ironia é a de sempre e aqui vê-se com clareza: o Jordaan construiu-se no século XVII como o bairro dos operários e dos imigrantes, fora do anel dos ricos, com casas pequenas e amontoamento, e durante trezentos anos foi pobre e com má fama. Hoje é dos metros quadrados mais caros dos Países Baixos.
Procura os hofjes: pátios interiores com jardim, escondidos atrás de portas normais na fachada, construídos por comerciantes ricos como habitação de caridade para viúvas e idosas. Continuam habitados, alguns podem visitar-se em silêncio, e são a melhor surpresa desta cidade. Estão sinalizados com uma placa discreta e por diante passa toda a gente sem os ver.
- 03
De Pijp e o sul
A sul do anel, De Pijp nasceu no final do século XIX, construído à pressa para operários, com ruas direitas e estreitas, e hoje é onde come e sai a gente jovem de Amesterdão. O mercado de Albert Cuyp atravessa-o de ponta a ponta e é o maior mercado de rua do país.
É o contrapeso perfeito ao centro: aqui não há canal de postal, não há fila, não há grupo com guarda-chuva, e há uma densidade de restaurantes, bares e cafés que o anel não tem, a preços que também não. É onde provar o surinamês, o turco e o indonésio a sério.
E ao lado está o Vondelpark, que é onde esta cidade se atira à relva assim que dá quinze graus: um parque enorme e oval, com ciclovias a atravessá-lo, patinadores, gente com vinho e barulho de fundo. No inverno está vazio. No primeiro dia de sol do ano, não cabe um alfinete. Essa mudança, de um dia para o outro, é muito daqui.
- 04
Noord
Do outro lado do IJ, a cinco minutos de ferry grátis a partir de trás da estação central, há uma Amesterdão que não tem nada a ver: naves industriais, estaleiros abandonados, gruas e espaço. Durante décadas foi a parte onde ninguém ia, literalmente do outro lado da água e sem ponte.
Hoje é onde acontece o interessante: o estaleiro NDSM é um descampado enorme cheio de arte urbana, ateliês de artistas em contentores, festivais e restaurantes montados em naves. Há um museu de cinema em forma de nave espacial e uma torre com um miradouro e um baloiço que te atira sobre o vazio de cem metros. É o bairro onde esta cidade experimenta, porque é o único sítio onde resta espaço.
E chegar é metade da graça: o ferry é grátis, vai cheio de gente com bicicletas, e do convés vê-se o centro inteiro de Amesterdão da água. Atravessa ao entardecer e volta de noite.
Perguntas frequentes
Podem-se tirar fotos no bairro vermelho de Amesterdão?
Às trabalhadoras, não: é terminantemente proibido e vão increpar-te, com toda a razão. As visitas guiadas pelo bairro estão proibidas desde 2020, porque grupos de turistas parados à frente da janela de quem está a trabalhar era insustentável, e desde 2023 também não se pode fumar canábis na rua nessa zona. O trabalho sexual é legal e regulado desde 2000: são independentes que alugam a janela por turnos. Passeia se quiseres, mas não é uma atração.
Onde ficar em Amesterdão?
Em De Pijp ou no sul se queres comida, preços de bairro e tranquilidade, com o centro a vinte minutos a pé. No Jordaan se queres o mais bonito, embora seja caro. Em Noord, do outro lado do rio, sai bastante mais barato e o ferry é grátis e demora cinco minutos. O centro puro e De Wallen são caros, barulhentos e estão saturados. E atenção: a taxa turística desta cidade é das mais altas da Europa.