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Rio num dia
9 h de percurso4 paragensMelhor: Sobe ao Cristo e ao Pão de Açúcar em dias diferentes: ambos pedem céuAtualizado julho de 2026
No Rio de Janeiro não há rio nenhum. A expedição portuguesa que entrou aqui a 1 de janeiro de 1502 viu uma boca de água enorme entre montanhas, deu por certo que era a foz de um rio grande e apontou-o assim: rio de janeiro. Era uma baía. Ninguém corrigiu o erro, o nome ficou, e quinhentos anos depois a cidade mais famosa do Brasil chama-se por um acidente geográfico que não existe.

Esse erro é a melhor maneira de entrar aqui, porque avisa de uma coisa: no Rio, quase nada é o que parece à primeira vista. A floresta que rodeia a cidade está plantada à mão. O Cristo foi fabricado em França. A foto da falésia é um truque de perspetiva. E o carnaval não é uma festa, é uma competição com júri. Um dia aqui faz-se a olhar para a paisagem, que é descomunal, e sabendo o que estás a olhar na realidade.
O percurso, paragem a paragem
4 PARAGENS- 01
O Cristo Redentor
Trinta metros de figura sobre um pedestal de oito, no alto de um pico de setecentos metros, concluído em 1931. O que quase ninguém sabe é que não foi feito aqui: o escultor era francês, a cabeça e as mãos foram modeladas em França e as peças chegaram ao Brasil de navio, para se montarem lá em cima. O financiamento não foi do estado: saiu de uma subscrição popular e da Igreja.
E há um pormenor que merece a viagem. A estátua é de betão armado revestido de milhares de tesselas de esteatite, uma pedra sabão de Minas Gerais que se corta com facilidade e aguenta o clima. Colaram-nas à mão, uma a uma, e as mulheres voluntárias que faziam esse trabalho escreveram mensagens no reverso das pedras antes de as colocar: nomes, orações, dedicatórias. Estão ali, contra o betão, sem que se possam ler. Milhares de mensagens escondidas dentro do monumento mais fotografado do hemisfério sul.
Vai cedo e com céu limpo: se houver nuvem, não vais ver nada e não há reembolso possível.
- 02
O Pão de Açúcar
Um bloco de granito de quase quatrocentos metros a sair do mar à boca da baía. Sobe-se em dois troços de teleférico, e o dado bom é a data: o primeiro troço foi inaugurado em 1912, o que o torna um dos primeiros teleféricos de passageiros do mundo. Pendurar cabos numa parede de granito sobre o mar em 1912, sem helicópteros, é uma proeza que hoje custa a imaginar.
O nome vem de uma forma que já não existe: na época colonial, o açúcar refinado vendia-se em blocos cónicos, moldados nuns recipientes de barro chamados formas de pão de açúcar. A rocha tem essa forma exata, e daí o nome. É um objeto industrial desaparecido transformado em topónimo.
E o conselho que decide a visita: sobe ao pôr do sol. Vê-se a cidade, a baía, as praias e o Cristo em frente no outro pico, e com o sol a descer acendem-se as luzes enquanto estás lá em cima. É das poucas coisas no mundo que merecem a fila e o preço.
- 03
Copacabana e Ipanema
Comecemos pelo principal: bairros a sério, com vizinhos, escolas e padarias, não cenários. E a praia aqui não funciona como na Europa, por isso convém saber as regras antes de te plantares lá com a geleira.
Ninguém traz nada. Chega-se com o que se tem vestido, pede-se uma cadeira e um chapéu de sol ao do quiosque, que to planta, e a partir daí tudo vai e vem: cerveja gelada, água de coco, milho, queijo na brasa, camarão, biquínis, óculos. Um desfile constante de vendedores pela areia. Tu não te levantas.
E há um mapa social que os cariocas leem e tu não: a praia está dividida por postos de nadador-salvador numerados, e cada um tem a sua tribo. Em Ipanema, o posto nove é a gente jovem e alternativa, o oito é o ambiente LGBT, e assim por diante. Pergunta ou observa antes de atirares a toalha. E não leves nada de valor: nem telemóvel, nem relógio, nem carteira. Só o dinheiro do dia no bolso dos calções.
- 04
A escadaria dos azulejos
Entre a Lapa e Santa Teresa há uma escadaria de duzentos e tal degraus coberta inteiramente de azulejos coloridos, com mais de duas mil peças trazidas de sessenta países. Fê-la uma só pessoa: Jorge Selarón, um artista chileno que chegou ao Rio, se instalou numa casa dessa escadaria e começou a revesti-la em 1990 como projeto pessoal.
Nunca parou. Trabalhou nela mais de vinte anos, mudando-a constantemente, tirando e pondo azulejos, financiando-a com a venda dos seus quadros e com as peças que lhe mandava gente de todo o mundo. Dizia que era uma homenagem ao povo brasileiro e que a obra só terminaria no dia da sua morte.
Apareceu morto nessa escadaria em 2013, em circunstâncias que nunca se esclareceram por completo. A escadaria conserva-se tal como a deixou.
É grátis, está sempre cheia de gente e não leva nem meia hora, mas sabendo a história deixa de ser uma foto colorida e passa a ser outra coisa.
Perguntas frequentes
O que ver no Rio num dia?
O Cristo e o Pão de Açúcar, mas ambos exigem céu limpo, por isso fá-los em dias diferentes ou vê a previsão e decide de manhã. O teleférico do Pão de Açúcar é de 1912, um dos primeiros do mundo, e há que subir ao pôr do sol. Copacabana ou Ipanema, sabendo que aqui não se leva toalha nem geleira: aluga-se cadeira e tudo o resto trazem-to. E a escadaria de Selarón, que um chileno fez sozinho durante vinte anos.
Porque se chama Rio de Janeiro se não há rio?
Por um erro que ninguém corrigiu. A expedição portuguesa entrou aqui a 1 de janeiro de 1502, viu uma boca de água enorme entre montanhas, deu por certo que era a foz de um rio grande e apontou-o assim: rio de janeiro. Era uma baía, a de Guanabara. O nome ficou, e quinhentos anos depois a cidade mais famosa do Brasil chama-se por um acidente geográfico que não existe.