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Comer em Toronto

4 paragensAtualizado julho de 2026

EM RESUMO

Duas correcções antes de começar, porque toda a gente traz as duas. O «bacon canadiano» que vendem fora do Canadá não é bacon: é lombo de porco em salmoura passado por farinha de milho, e aqui chama-se peameal. E a poutine não é de Toronto: é do Quebeque, come-se aqui como aqui se come sushi, e dizer que é o prato nacional no Ontário é como dizer que a paelha é de Bilbau.

A fruit and vegetable stall inside St Lawrence Market, its crates stacked up
© Benreis · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons

O que é mesmo daqui é a outra coisa: cerca de metade dos habitantes nasceu fora do Canadá e trouxe a sua cozinha inteira, não uma versão suavizada. Isso significa que a melhor comida de Toronto não está no centro nem numa lista de prémios: está num centro comercial feio de Scarborough onde só se fala tamil, e custa o que custa um hambúrguer.

O percurso, paragem a paragem

4 PARAGENS
  1. 01

    O peameal

    O prato de Toronto serve-se em sandes de peameal bacon, e há que perceber o que é porque o nome engana a dobrar. Não é bacon: é lombo de porco, a parte magra, curado em salmoura e depois passado por fora por farinha de milho amarela, que é o que lhe dá aquele rebordo característico. E não leva ervilhas: chama-se peameal porque no século XIX se passava por farinha de ervilha seca, que conservava melhor. Quando se mudou para o milho, o nome ficou.

    Come-se num pãozinho fofo, com mostarda e mais nada, no St Lawrence Market, de pé e a meio da manhã. A fila é comprida e anda depressa.

    E um aviso de expectativas: é carne magra, por isso não esperes a gordura estaladiça do bacon inglês nem do americano. É outra coisa, e é a coisa daqui.

  2. 02

    Scarborough

    A leste do centro, a meia hora larga, está Scarborough, que é onde vive boa parte da imigração recente de Toronto e onde está, sem discussão séria, a melhor comida da cidade. Comida chinesa de várias regiões, cingalesa, tamil, filipina, caribenha, afegã. E está toda em centros comerciais de um piso, feios, com estacionamento à frente e letreiros de plástico.

    Essa fealdade é a garantia: estes sítios não vivem de os encontrares tu, vivem do bairro, por isso não suavizaram nada nem puseram uma ementa em inglês com fotografias. Toronto tem a maior comunidade tamil fora do Sri Lanka e da Índia, e aqui come-se um kothu roti (pão roti picado à lâmina na chapa com legumes, ovo e caril, com um barulho que se ouve da rua) que não existe na Europa. Se tens um dia e queres comer bem a sério, apanha o metro para leste.

  3. 03

    A poutine, que é do Quebeque

    Batatas fritas, molho de carne quente e grumos de cheddar fresco. É do Quebeque, do campo, dos anos cinquenta, e chegou a Toronto como chega qualquer coisa a Toronto: com as pessoas que se mudaram. Come-se muito e é boa, mas não é o prato desta cidade e dizer o contrário irrita duas províncias ao mesmo tempo.

    A prova de se está bem feita é acústica: os grumos de queijo têm de chiar ao morder. Esse chiar só o faz o cheddar fresco do dia, sem refrigerar, e desaparece ao fim de horas.

    Se o queijo não chiar, é queijo velho ou está ralado, e então é um prato de batatas com molho. No Quebeque isso é motivo de discussão séria. Aqui, um pouco menos.

  4. 04

    O café duplo

    A Tim Hortons nasceu em 1964 pela mão de um jogador de hóquei e é, para o bem e para o mal, uma instituição nacional: tem mais estabelecimentos do que qualquer outra cadeia do país e faz parte da paisagem de qualquer estrada canadiana. O café não é bom e toda a gente o sabe, incluindo os canadianos, que o bebem na mesma.

    O que há a aprender é a língua: um «double-double» é um café com dois açúcares e dois leites, e a expressão está tão assente que entrou no dicionário canadiano de Oxford em 2004. Pedi-lo assim poupa-te uma conversa.

    E o Timbit é a bola de massa que sai do buraco do dónute: vendem-se em caixas e levam-se às reuniões. Nada disto é gastronomia e tudo isto é o Canadá.

Perguntas frequentes

A poutine é o prato de Toronto?

Não: é do Quebeque, do campo e dos anos cinquenta. Aqui come-se muito mas não é daqui. O prato de Toronto é a sandes de peameal bacon. E a prova de uma boa poutine é acústica: os grumos de queijo têm de chiar ao morder, e isso só o faz o cheddar fresco do dia.

Onde se come melhor em Toronto?

Em Scarborough, a meia hora larga para leste, em centros comerciais feios de um piso onde está a comida chinesa, tamil, cingalesa e filipina da cidade. Essa fealdade é a garantia: esses sítios vivem do bairro e não suavizaram nada. Toronto tem a maior comunidade tamil fora do Sri Lanka e da Índia.

O que é um double-double?

Um café com dois açúcares e dois leites, na língua da Tim Hortons, que é a cadeia de cafetarias nacional do Canadá. A expressão está tão assente que entrou no dicionário canadiano de Oxford em 2004. E um Timbit é a bola de massa do buraco do dónute.

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